O Estado de São Paulo
Data: 18/03/2007
Editoria: Feminino
O caminho da sobrevivência
A partir de histórias de superação, psicoterapeuta traçou a personalidade de quem consegue superar adversidades
Ciça Vallerio
Histórias de superação de tirar o chapéu foram o foco da pesquisa realizada durante nove anos pela psicoterapeuta e empresária Claudia Riecken, que se dedica ao estudo científico em neurologia do comportamento. Ela esmiuçou traços da personalidade de mais de 180 "sobreviventes" - garimpados em vários continentes - e revela as motivações que o levaram dar a volta por cima, em grande estilo. Essas experiências estão no livro Sobreviver:Instinto de Vencedor (Editora Saraiva, R$ 39,00). Tem o caso do paulista e modelo Ranimiro Lotufo, que perdeu uma das pernas em um acidente de parapente, mas foi além de seu limite físico e continuou desfilando e praticando esportes radicais. O americano Kenneth Baldwin, casado e pai de uma filha, tentou suicídio ao se jogar da famosa ponte Golden Kate, em São Francisco, e, contrariando as estatísticas, conseguiu sobreviver e mudou o rumo de sua vida. A psicóloga húngara Edith Eva Eger, sobrevivente no campo de concentração nazista de Auschwitz, é hoje referência mundial em questões relacionadas à paz. Há também a virada da empresa paulistana TMS, que pegou fogo, mas seus sócios conseguiram reerguê-la após perda total do patrimônio. A partir dos depoimentos, a autora traça características comportamentais desses sobreviventes e oferece caminhos aos leitores. Claudia, aliás, é a criadora do Método Quantum, teste comportamental que já foi dirigido a mais de 200 mil profissionais, de empresas nacionais e estrangeiras. Ela é também presidente da consultoria Quantum Assessment, e atende pacientes em seu consultório: - Nossa capacidade de sobrevivência é inata. Faz parte do ser humano. Apesar de alguns serem mais capazes do que outros de se restaurar após dramas pessoais, é possível sim, desenvolver algumas atitudes. Concentração, criatividade, serenidade são alguns dos recursos, mas não há regra única para sobreviver. Quem seguir uma receita, morrerá. Porque viver é uma arte com muitos elementos, possibilidades e necessidades diferentes para cada realidade. Vejo, no entanto que muitos sucumbem ao problema de bobeira, pois não percebem que existem escolhas. Claudia trata de uma expressão que está na moda e continua sendo abordada em livros: resiliência. Termo usado na Física, que significa "energia armazenada em um corpo alterado elasticamente, que faz, por exemplo, uma almofada retornar ao seu estado original após ser pressionada e afundada. "A pessoa resiliente, portanto, é capaz de restabelecer após sofrer pequenos e grandes reveses por conta de sua força interna. Ela observou que, para o "sobrevivente", a maneira de reagir é mais importante do que o problema em si. "Ou o infortúnio serve como um caminho de travessia ou como motivo para se vitimar", diz Claudia, 40 anos. Por isso, recusar-se a ser uma vítima é o ideal. Os resilientes passam por períodos de crise, mas num determinado momento não aceitam essa postura. Costumo dizer que a dor é inevitável, o sofrimento, opcional.
Experiência Pessoal
A própria autora superou crises e percalços, mas nada que se compare aos dramas vividos por seus entrevistados. Ela encarou uma crise financeira brava, com três filhos sob os seus cuidados, um deles recém-nascido. Mas conseguiu dar início a um negócio bem-sucedido, hoje reconhecido internacionalmente. Como uma boa resiliente, nunca desistiu nem se conformou. Fez parte também da sua história a restauração da vida afetiva e familiar, o que, para Claudia, é fundamental para se obter prazer e sucesso pessoal em qualquer coisa. E como todo "sobrevivente", encontrou suporte na família e numa relação afetiva duradoura, com seu atual companheiro, o empresário Jacy Martins Lage. As personalidades de "sobreviventes" têm alguns pontos em comum. A autora enumerou 12 deles. Entre os principais, está a persistência. São pessoas que costumam fazer com que as coisas funcionem. Levam um tombo, choram, mas levantam e continuam andando. Mantém um olho no objetivo e não arredam o pé. O humor é outro ponto forte - artifício usado sinceramente para se sentir bem. Vai muito além do "pense positivo", que Claudia faz questão de criticar. Para ela, o humor é uma atitude interna, da alma, não é um sorriso falso nos lábios. Outro traço comum: aceitar a adversidade como oportunidade. É saber tirar o melhor do pior. Ser otimista. Não significa, porém, seguir a infantilização do "método Poliana", famosa personagem que transformava toda desgraça em algo "bom". Em sua análise, Claudia observou também que os resilientes são paradoxais. São sérios e bem-humorados, autoconfiantes e autocríticos, organizados e bagunceiros. Não são 8 ou 80. Essa é a base da flexibilidade: poder acessar traços pessoais diversos. Como lembra a autora, eles também não estão preocupados em parecer bonzinhos, nem fazem o esperado. E são muito criativos.
ATITUDES POSITIVAS
A psicoterapeuta Claudia Riecken revela algumas das principais características das pessoas resilientes.
Não negar o problema: É comum as pessoas guardarem suas dores por muito tempo. Tentam negar a situação. Os resilientes vivenciam o problema, não escondem. Ficam chateados, passam por crises e sofrem. Apesar do bom humor comum entre os "sobreviventes", eles não ficam sempre sorrindo, achando que está tudo bem. É importante identificar, nos momentos cruciais, os sentimentos e necessidades. Se não houver essa transparência, o auto-engano abafa todas as possibilidades de reverter a situação.
Pedir ajuda: A fragilidade é vista com preconceito por quem está de fora e até mesmo por quem passa pela adversidade. Muitos acabam se desqualificando e isso traz muita vergonha. Embora sentimentos assim sejam naturais, os "sobreviventes" não se fecham no problema, não o escondem e pedem ajuda. São sinceros com as próprias falhas e pedem socorro. Vale família, terapia, grupos de apoio, pessoas qualificadas, amigos.... O que não podem é se sentir sem apoio, sem segurança, porque senão se vitimizam, ficam letárgicos e a falta de movimento combina com depressão, vício e agressão. Estados que não condizem com sobrevivência.
Criar planos reais: Os "sobreviventes" buscam conseguir pequenos avanços, dia após dia, sem, no entanto, criar projetos mirabolantes. Buscam superar um desafio por vez. Lembre-se de que a persistência é fundamental, mas a teimosia não.
Ter flexibilidade: Os "sobreviventes" são avessos à rigidez. São de vários jeitos ao mesmo tempo. É a tal da personalidade paradoxal: sensível e forte, maduro e divertido, rude e gentil, preguiçoso e trabalhador, etc. Essas características duais contribuem para que se adaptem melhor às adversidades. Ter uma tendência mais marcante, para essas pessoas, não significa estar em uma prisão, afinal a alma é livre para seguir qualquer caminho.
Fugir da invalidação: Responsável pela baixa auto-estima, a invalidação é a sabotadora da essência. São atitudes que vêm da infância, da escola, do chefe, do "colega" de trabalho e até das próprias pessoas. Sejam gestos de desaprovação, agressão verbal, insinuações negativas e sarcásticas. Se é impossível fugir das invalidações, deve-se pelo menos neutralizá-las. Reconhecer as próprias fraquezas e erros é o primeiro passo. Deve-se dimensioná-los, enfrentá-los e seguir em frente a fim de superar-se. É um meio de desenvolver a auto-estima e a autoconfiança.